Sobre a edi��o

Inverno 2009

Editorial

A Índia fascina. A Índia encanta. Há algo naquele país que desperta em nós fascínio e estranhamento ao mesmo tempo. O cineasta francês Jean-Claude Carrière escreveu sobre a Índia: “É preciso algum tempo para apreender esta particularidade profunda e para amá-la, porque aquilo que acreditamos reter, aqui mais do que em outro lugar, de repente nos escapa e nos desconcerta”.

Hoje em dia, por motivos que não precisamos mencionar, a cultura indiana está vivendo uma popularidade sem precedentes aqui na nossa terra. Porém, esse fascínio vem acompanhado de distorções de imagens caricaturadas, devido ao pouco rigor com que a mídia mostra a cultura da Índia. Dedicarmos esta edição a expor um pouco dessa bela civilização é a forma que encontramos de contribuir para apresentá-la de uma maneira mais realista aos nossos leitores.

Atualmente é através do Yoga que muitos de nós despertamos o interesse pela Índia. Então saímos em busca de conhecer a cultura indiana. E descobrimos um universo riquíssimo que carrega consigo uma história milenar, ainda viva e presente e que felizmente chegou até nós. Desde o surgimento do Yoga - que remonta aos Vedas (cerca de 4.000 a.C - 2.000 a.C.) - observamos ao longo da história a transformação que teve esta prática e estilo de vida. Primeiramente, como parte integrante da cultura védica, muito posteriormente, migrando para outros países e especialmente para o ocidente.

A cultura hindu, e no seu bojo o Yoga, foi amplamente estudada e influenciou artistas e pensadores no ocidente. Foi no período romântico alemão, século XVIII, que os laços entre cultura védica e ocidente se estreitaram. Cito nomes de filósofos como August Wilhelm Schlegel (traduziu, por primeira vez, a Bhagavad Gita e o Ramayana para o latim), Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Hermann Hesse, que tiveram contato com a cultura indiana e foram influenciados pela leitura de traduções de textos que fazem parte da tradição védica. Fora da Europa, na América do Norte, a cultura védica também influenciou pensadores. Em estudo intitulado History of Modern Yoga, Elizabeth De Michelis afirma que o primeiro ocidental a se dizer yogi foi o filósofo norte americano Henry David Thoreau que viveu entre 1817 e 1862.

Posteriormente, em 1893, Swami Vivekananda aportou em terras norte-americanas para discursar no congresso das Religiões, em Chicago. Até então eram os ocidentais que iam em busca da cultura hindu. Pela primeira vez um representante da Índia pisava, de maneira tão marcante, em solo ocidental para falar sobre o Yoga e sobre a cultura indiana. Assim chegou o Yoga no ocidente e começou o que chamamos de Yoga Moderno.

De grandes filósofos às academias de ginástica e à televisão, vemos como o Yoga transformou-se ao longo do tempo e influenciou e foi influenciado pela cultura na qual se inseriu. Hoje podemos ver facetas do Yoga nunca antes imaginadas por sadhus de milênios atrás. Isso aconteceu porque a cultura é dinâmica. E é um engano pensar que a tradição védica e o Yoga sofreram mudanças apenas no ocidente. Essa transformação ocorreu mesmo no bojo da cultura védica, em solo indiano. O que se propõe como ideal de uma sociedade nos Vedas não condiz com o que observamos hoje na Índia. A Índia foi invadida por diferentes povos: gregos, muçulmanos, ingleses, portugueses e franceses. Estes foram influenciados pela cultura indiana, e também deixaram a sua influência neste país.

Nesta edição dos Cadernos de Yoga, trazemos artigos que nos apresentam alguns ideais da tradição védica. Isso não quer dizer que esta proposta esteja majoritariamente presente na Índia atual. Mas pode-se dizer que ainda está presente neste país, a partir de um riquíssimo legado escrito e ainda vivo no coração de muitas pessoas. E o mais importante para nós é que, independente de tempo e de espaço, essa tradição pode e tem o poder de enriquecer a nossa visão de mundo e de contribuir com o nosso aprendizado e amadurecimento pessoal. Para isso, não precisamos ser indianos ou hindus, basta sermos humanos. Por isso a tradição védica, ao longo do tempo, atraiu olhos, ouvidos e mentes de lugares distintos. Por isso estamos aqui, escrevendo e lendo sobre Yoga e sobre a cultura védica.

Boa leitura. Harih Om!

Tales Nunes

 

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  • Quem mantra seus males espanta - Sri Devi ou Sarvamangalam Sotram
  • Pensando com o corpo - Bakasana e Bhujapidasana
  • O que é Dharma?
  • O crescimento espiritual pela visão védica
  • Brahmacharya - o estudante nos Vedas
  • A mulher na cultura védica
  • Samskaras, rituais védicos de purificação - o casamento
  • Devi, o aspecto feminino do Todo
  • Yoga na Prática - Entrevista com Shri Dhira Chaitanya
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